quarta-feira, 23/09/2020
Início Colorado #baúdobairrista: o ano em que o Inter se tornou Seleção Olímpica

#baúdobairrista: o ano em que o Inter se tornou Seleção Olímpica

Em 1984, o colorado ainda vivia na crista da onda de seus títulos nacionais recentes e mantinha o status de um dos maiores clubes do Brasil. Porém, foi eliminado muito cedo do Brasileirão, passando vergonha ao não conseguir a classificação para a terceira fase. O Inter não foi o único a ter uma campanha pífia: Guarani, Sport, Cruzeiro, Atlético Mineiro, São Paulo, Botafogo, Bahia, Santa Cruz e Palmeiras também deram adeus à competição cedo demais. Com isso, a CBF organizou o Torneio Heleno Nunes, disputado entre as dez equipes nos meses de abril e maio.

O Inter venceu a competição com um elenco que contava com o campeão invicto Mauro Galvão e os jovens Gilmar e Dunga. A equipe ainda foi ao Japão vencer a Copa Kirin, tendo enfrentado a seleção nipônica, a Irlanda e o Toulouse, da França. O colorado continuou a turnê na Ásia com amistosos contra a Seleção da China e de Hong Kong, até que um telefonema mudou a trajetória do clube naquele ano.

O técnico da Seleção Brasileira Olímpica, Jair Picerni, estava com dificuldades para acertar a convocação do torneio e achou uma solução pouco usual. Após receber um não do Fluminense, que estava na reta final do Brasileirão, Picerni contatou a direção do Inter para levar os 11 titulares do clube a Los Angeles.

O Inter virou Seleção e a Guerra Fria

Os 11 colorados eram Gilmar Rinaldi, Mauro Galvão, Pinga, Luís Carlos Wick, André Luís, Dunga, Milton Cruz, Ademir, Paulo Santos, Kita e Silvinho. Além dos vermelhos, foram convocados Luís Henrique (Figueirense), Tonho Gil (Avaí, ex-Inter), Ronaldo Moraes (Corinthians), Chicão (Ponte Preta), Davi (Santos) e Gilmar Popoca (Flamengo), que recebeu o prêmio de melhor jogador da competição.

Outro ponto importante é que aquela Olimpíada não foi das mais tranquilas. Na edição anterior, sediada em Moscou, os clubes ocidentais/capitalistas não participaram das Olimpíadas como protesto contra a União Soviética, país socialista opositor aos Estados Unidos na Guerra Fria. Passados os quatro anos, foi a vez dos países socialistas – como a União Soviética e Alemanha Oriental – se ausentarem e boicotarem a competição que acontecia em Los Angeles, a terra do cinema.

Logo na festa de estreia, o clima da Guerra Fria deu as caras. Não só o mascote era uma água nomeada de Sam, a atração principal mostrava-se um marco de todo o avanço tecnológico propiciado pelo capitalismo americano: em um Los Angeles Memorial Coliseum lotado, o piloto Bill Suitor cruzou o gramado com uma mochila a jato, ganhando o apelido de Homem-Foguete – ou Rocketman. Tudo isso ao som da banda do exército americano tocando ao fundo, após, claro, discurso do presidente Ronald Reagan. Em suma, era impossível ser mais americano do que isso.

De desacreditados a finalistas

Mas a Seleção Brasileira de futebol não tinha nada do que ver com isso e logo de cara venceu sua primeira partida. Gilmar Popoca, Silvinho e Dunga marcaram e o placar fechou em 3 a 1 contra a Arábia Saudita. Na sequência, o Brasil ainda venceu a Alemanha Ocidental e o Marrocos, classificando-se em primeiro no Grupo C.

Nas quartas-de-final veio a primeiro obstáculo no caminho rumo ao título inédito. Um surpreendente Canadá abriu o placar, mas Gilmar empatou o jogo aos 30’ do segundo tempo. A partida seguiu 0 a 0 na prorrogação e foi decidida somente nos pênaltis, quando Gilmar Rinaldi brilhou com duas defesas e cimentou a vitória por 4 a 2.

As semis não foram mais fáceis. O Brasil enfrentaria uma Itália recheada de craques, como Franco Baresi, Pietro Fanna, Walter Zenga e Aldo Serena. Nesta partida, os sul-americanos apanharam, mas não deixaram quieto e bateram de volta. Em meio à violência, quem começou ganhando foi a seleção canarinha com um gol do artilheiro Gilmar Popoca já no segundo tempo. Menos de dez minutos depois, Fanna deixou tudo igual e assim foi até o final dos 90 minutos. Na prorrogação, um herói improvável: depois de uma bola rebatida pela zaga italiana, o lateral-direito Ronaldo Moraes encheu o pé e garantiu a classificação do Brasil para a sua primeira final na história das Olimpíadas.

A final seria contra a França, que havia eliminado a Iuguslávia de Deján Stojković na prorrogação. Os Bleus já haviam conquistado a Eurocopa daquele ano com uma seleção liderada por Michel Platini e vinham embalados para o segundo troféu do ano. O jogo aconteceu no estádio Rose Bowl, em Pasadena, e marcou o maior público da história dos Jogos Olímpicos, com 101.799 pessoas. O Brasil entrava em campo com oito colorados: Gilmar Rinaldi, Ronaldo, Pinga, Mauro Galvão e André Luiz; Ademir, Dunga e Gilmar; Tonho, Kita e Silvinho.

O jogo começou tenso, mas a França resolveu em 5 minutos. Aos 10’ do segundo tempo, François Brisson abriu o placar e, aos 15’, Daniel Xuereb fechou o placar em 2 a 0. Primeira final da seleção e primeira prata. O mesmo viria a acontecer em 1988, mas desta vez sob circunstâncias bastante diferentes – a seleção das Olimpíadas de Seul era uma das favoritas, com Romário, Bebeto, Taffarel, Careca e Geovani.

Jogadores colorados com a medalha de prata após a conquista em Los Angeles com a amarelinha.

Em 1984, o Internacional formou a base da Seleção Brasileira com um elenco desacreditado pois, não só se tratava de um clube, mas de um clube que decepcionara no Campeonato Brasileiro daquele ano. Ainda assim, o entrosamento e a habilidade dos jogadores levaram a seleção a sua primeira medalha na história da competição. Não é demais dizer que o Internacional não obstante usou a camisa da Seleção, mas como honrou o manto nacional.

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