quinta-feira, 09/07/2020
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Caminho da Glória: a Libertadores de 2010

Após bater na trave no Campeonato Brasileiro em 2009, o Internacional estava atrás de um título. Veja bem, os recentes anos foram vitoriosos para o colorado: Libertadores e Mundial em 2006, Recopa em 2007, Sul-Americana em 2008 e nos últimos 365 dias os únicos canecos levantados foram do Gauchão e da Copa Suruga. Não me entendam mal, ambos os títulos foram muito bem comemorados, mas a ambição do Inter era maior.

Frustrado com o vice no Brasileirão, o clube gaúcho decidiu aproveitar a classificação para a Libertadores. Começou 2010 com tudo e classificou-se invicto na fase de grupos do torneio continental. Com três vitórias em casa e três empates fora, o colorado ficou à frente de Emelec, Deportivo Quito e Cerro do Uruguai.

A fase de grupos teve bons momentos. O primeiro jogo, em casa, foi contra o Emelec e não poderia começar pior. Um primeiro tempo desanimador foi seguido por um gol dos visitantes logo no recomeço da partida. Coube a Nei, em um belo chute da intermediária, empatar o jogo e dar início ao que seria A Teoria dos Gols de Lateral-Direito na Libertadores pelo Inter – em 2006, o primeiro gol da campanha foi do lateral-direito Ceará. Na reta final, Alecsandro selou o que seria não só uma virada, como também a primeira vitória da história do Inter em uma estreia de Libertadores.

Nei marcou o primeiro gol do Inter na Libertadores, assim como Ceará em 2006.

Outro destaque aconteceu na partida contra o Deportivo Quito em pleno Equador. Apesar de um empate fraco, o jogo ficou marcado por uma cena um tanto quanto curiosa. Com um gol para cada lado no placar, o colombiano José Buitrago assinalou pênalti para os donos da casa. O experiente goleiro Abbondanzieri então começou uma longa conversa com o árbitro e conseguiu uma façanha inédita: a reversão da penalidade em falta de ataque dos equatorianos. O Inter sustentava, assim, um empate com a equipe praticamente reserva.

Sob o comando de Jorge Fossati, a fase de grupos serviu como consolidações de duas promessas coloradas. Giuliano e Walter maracaram presença na rotação do Inter, além da constante escalação de Andrezinho.

Fase final

Classificado em primeiro, o adversário do Inter nas oitavas-de-final seria o Banfield da Argentina. O colorado viajou ao país vizinho e enfrentou toda a catimba dos gringos. Campeão da Apertura do ano anterior, o Banfield vinha forte e sua torcida sabia disso. A festa no Estádio Florencio Sola era ensurdecedora e explodiu ainda mais no segundo tempo.

O zero a zero reinou pelos primeiros 45 minutos, mas não demorou muito para o placar ser aberto na etapa complementar. Em uma  bola perdida na área colorada, os argentinos abriram o placar. Menos de cinco minutos depois, Kleber acertou uma bucha no ângulo e calou a região metropolitana de Buenos Aires. Ainda assim, a festa seria dos donos da casa. Em dois erros idênticos da defesa gaúcha, o Banfield selou o placar de 3 a 1 e encaminhou-se para Porto Alegre com uma vantagem sólida.

Mas se houve festa na Argentina, o Beira-Rio teve que dar uma resposta à altura. Com uma pressão absurda, o Inter abriu o placar apenas aos 41’ com gol de Alecsandro. Dos pés dos armadores D’Alessandro e Andrezinho, o Inter seguiu criando. Sem desistir jamais, o colorado coroou mais um centroavante. Walter, de cabeça, fez o segundo e deu ao clube da casa a margem pelo gol qualificado. A equipe de Fossati estava nas quartas-de-final.

Walter comemorou gol imitando a estrela americana Beyoncé. Foto: Fernando Gomes

Se enfrentar um argentino é difícil, enfrentar um argentino campeão é mais difícil ainda. O Estudiantes carregava a faixa de atuais campeões da Libertadores e o Inter sentiu. A primeira partida foi no Beira-Rio e a tensão se misturava no ar com o sereno gaúcho. Após 87 minutos de placar zerado, Sorondo meteu a cabeça na bola no que seria um cruzamento sob medida de Andrezinho. O colorado conseguiu a vantagem, mas sabia que não seria fácil vencer na Argentina.

Dito e feito. O jogo começou com a superioridade do Estudiantes e em dois ataques seguidos, a vantagem colorado foi completamente destruída. Verón acertou um lançamento diagonal que percorreu metade do campo até encontrar González, que abriu o placar. No lance seguinte, Enzo Perez encaixou um golaço na gaveta. Assim, o Estudiantes vencia por 2 a 0 antes do relógio marcar 20 minutos de partida.

Nos minutos que se seguiram, o Inter não soube reagir. Quem estava mais perto de um gol era o Estudiantes e Fossati decidiu não efetuar trocas. Somente aos 22’ da etapa complementar que o comandante uruguaio decidiu mexer. Walter entrou no lugar de Nei, mas nada adiantou. O Inter seguia atrás no placar quando, aos 30’, Giuliano foi a campo no lugar de D’Alessandro em uma aposta por velocidade sobre um time que parecia cansado.

A bola no fundo da rede deu ao Inter a passagem para as semifinais de maneira dramática. Foto: Juan Mabromata / AFP

Os minutos passavam e a torcida fazia a festa. Soltava foguetes, acendia sinalizadores e cantavam sem parar. Foi justamente a partir da fumaça das comemorações que saiu a consagração vermelha. Aos 43’, Giuliano recebeu o passo por elevação de Andrezinho e bateu cruzado. Em um frenesi, a festa mudou de lado e o Inter estava de novo na disputa. Fim de jogo e o colorado comemorava uma das derrotas mais deliciosas da história do clube.

Troca de comando

Entre as quartas-de-final e as semis, passaram-se dois meses. Pausa para a Copa do Mundo e calendário apertado fizeram com que o Inter voltasse a campo pela Libertadores apenas no dia 28 de julho. O adversário seria o São Paulo de Ricardo Gomes que não só seria o primeiro – e único – brasileiro na campanha do Inter, como marcava uma reedição da final de 2006.

Para a partida, o clube gaúcho tinha uma grande mudança. Jorge Fossati acumulou resultados ruins no Campeonato Brasileiro e foi demitido poucos dias após o jogo contra o Estudiantes. No seu lugar assumiu um velho conhecido dos torcedores gaúchos. Celso Roth era o novo comandante colorado em uma jogada ousada e muito criticada pela torcida vermelha.

Celso Roth comandou o colorado pelo restante da temporada.

O primeiro jogo foi na fria Porto Alegre e mais uma vez a estrela de Giuliano brilhou. O Inter foi soberano ao longo de toda a partida contra o que seria uma tentativa de retranca de Ricardo Gomes. Mas foi somente no segundo tempo, com a equipe mais rápida após a entrada de Giuliano no lugar de Andrezinho que saiu o tento. A partida ainda ficou marcada como a reestreia de Rafael Sóbis com a camisa colorada, quatro anos após brilhar com o clube.

No Morumbi, Renan teve uma falha grotesca e Alex Silva aproveitou para deixar tudo igual no agregado. O Inter atacou, mas seguiu atrás no placar pelo restante do primeiro tempo. Logo aos 6’ da etapa complementar, D’Alessandro cobrou falta frontal e contou com o desvio de Alecsandro para igualar o jogo no Morumbi. A festa foi enorme e vantagem também. O São Paulo agora precisava de dois gols para tirar o Inter da final.

Ainda assim, o susto veio já no lance seguinte. Ricardo Oliveira aproveitou a sobra e deixou o São Paulo novamente à frente no placar. Com uma falha de goleiro e com o 2 a 2 dando a vantagem para o Inter, a partida mais parecia uma cópia de 2006. Para adicionar às coincidências, Tinga – que, assim como Sóbis retornou na pausa da Copa do Mundo – foi expulso. A única diferença mesmo estava na figura de Fernandão, agora defendendo o tricolor paulista.

Em uma imagem icônica, o Inter de Índio e Guiñazu comemora a vitória sobre o São Paulo de Marcelinho Paraíba e Fernandão.

O São Paulo bem que tentou. Rogério Ceni foi ao ataque, mas não deu. O Inter estava novamente na final da Libertadores e desta vez o passaporte para Abu Dhabi já estava garantido. Por favor parte da Concacaf,  o Chivas – outro finalista – não poderia disputar o Mundial em dezembro por conta da vaga ser designada às equipes da Conmebol.

A final

Em um jogo marcado pela superioridade colorada, o Inter começou atrás no placar. No que parecia se encaminhar para um empate na primeira etapa, Bautista – sim, o da luvinha – manchou o domínio colorado nos acréscimos. Como era possível? O Inter era mais time, jogava melhor… parecia questão de tempo que não só sairia uma vitória, mas uma goleada. Ainda assim, os visitantes encontravam-se atrás do placar.

Giuliano comemorava mais um gol decisivo, desta vez contra o Chivas.

Assim seguiu até os trinta minutos da etapa complementar. O Inter amassava o Chivas, mas o gol não saía de jeito nenhum. E da mesma forma que aconteceu ao longo de toda a campanha colorada, a solução dos problemas do Inter foi Giuliano. Desta vez titular, Giuliano antecipou a zaga no cruzamento de Kleber e deixou tudo igual no México. Três minutos depois foi a vez de Bolívar. D’Alessandro alçou na área, Índio escorou e Bolívar, em um movimento digno de contorcionista, empurrou para o fundo das redes.

Uma semana depois as equipes se encontraram em Porto Alegre no que pareceu ser mais um repeteco. O Inter tinha duas alterações: Tinga retornou de suspensão para ocupar o lugar de Giuliano e Alecsandro, lesionado, deu lugar ao ídolo Rafael Sóbis, agora totalmente recuperado de lesão. O dono da casa começou melhor, amassando a equipe adversária, mas, no apagar da primeira etapa, Fabián marcou para o Chivas. Um golaço diga-se de passagem, em um dos poucos chutes da equipe visitante.

O Inter voltou para o segundo tempo sedento pela vitória. Com um Beira-Rio lotado, os torcedores mereciam um espetáculo. Assim, em mais uma semelhança com a conquista de 2006, Rafael Sóbis, escalado de última hora no lugar de Alecsandro e recuperando-se de lesão, marcou o tento da igualdade no que seria uma das imagens consagradas daquela campanha. Segurando o braço, o ídolo comemorou de maneira solitária.

Rafael Sóbis está na história por ter feito gol na final das duas conquistas da Libertadores.

A mão no ombro não foi por nada e Sóbis teve que dar lugar para o jovem Leandro Damião. Aos 30’, o centroavante antecipou o passe da defesa e realizou uma corrida de 52 metros rumo à meta dos mexicanos. De bico, Damião marcava o gol que mudou sua carreira.

Giuliano, que estava no banco, entrou para marcar o terceiro. Mais um golaço, embalado pela clássica narração de “faz o seu, Giuliano, faz o seu!” de Galvão Bueno. Nem mesmo o gol relâmpago de Omar Bravo fez a festa diminuir em Porto Alegre. O Inter era bi da América e nada mudaria isso.

A Taça da Libertadores foi entregue por ninguém menos que Pelé.

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