quarta-feira, 23/09/2020
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Guia do Elenco: a Sul-Americana de 2008 e a nova leva de ídolos

O Internacional já havia conquistado a América quando decidiu levantar mais um caneco da Conmebol. Em 2008, com um elenco remodelado desde o título da Libertadores e do Mundial dois anos antes, o colorado venceu a Copa Sul-Americana em uma campanha invicta – pelo jeito, campeonatos invictos são do gosto do Inter.

Para começar, o colorado mexeu na casamata. Abel Braga foi substituído por um técnico cada vez mais em ascensão, Tite, que tinha no currículo uma Copa do Brasil com o rival e encontrava-se no Al Ain, dos Emirados Árabes. Já nos gramados, outro comandante também teve seu lugar realocado: o líder Clemer, já com 40 anos, foi para o banco de reservas enquanto Lauro assumia a posição de titular. O goleiro pertencia ao Cruzeiro e estava emprestado ao Sertãozinho, mas após Renan e Muriel contraírem hepatite, Lauro foi o escolhido pelo Inter.

Na lateral-direita estava um velho conhecido colorado. Após a vitória sobre o São Paulo na final de 2006, Bolívar foi vendido ao Mônaco e permaneceu na França até junho de 2008. O jogador retornou ao colorado para a conquista da Sul-Americana e posteriormente tornou-se o capitão do bi da América.

Abrindo a zaga estava Índio. Um dos maiores ídolos da história do colorado, Índio jamais saiu do Inter desde que chegou em 2005. Reserva no título da Libertadores e titular na conquista do Mundo, Índio manteve a posição e assim foi até o momento de sua aposentadoria, em 2014. O zagueiro disputou 391 partidas com a camisa vermelha e ultrapassou Figueroa como o defensor com mais gols pelo clube, tendo marcado 33.

Índio e Bolívar formaram dupla na defesa colorada por muitos anos.

Para jogar ao seu, o Inter acertou a contratação de Álvaro, que estava há quase dez anos na futebol espanhol. O zagueiro teve diversas atuações sólidas no clube e permaneceu até agosto de 2009, integrando posteriormente a equipe do Flamengo, que superou o colorado no Campeonato Brasileiro daquele ano. 

Na lateral-esquerda, o Inter contava com Marcão, jogador que tinha se destacado na campanha do Atlético Paranaense na Libertadores de 2005. Pelo clube paranaense, foi vice da competição, disputando a final no Beira-Rio contra o São Paulo e vestindo a braçadeira de capitão da equipe. Dois anos depois, em 2007, o colorado contratou Marcão que vestia a camisa do Kawasaki Frontale, do Japão. Antes da conquista da Sul-Americana, o lateral envolveu-se em um caso de doping por uma substância contida em um remédio contra a queda de cabelos.

Abrindo o meio-campo estava o então-ídolo-porém-hoje-traidor Edinho. O volante chegou muito novo ao Internacional, com apenas 20 anos, após uma tentativa fracassada de ingressar no futebol francês o deixar à deriva no país europeu. Edinho foi amparado por Fernandão, que havia chegado a pouco ao Olympique Marseille e quando retornou, assinou com o colorado. Em Porto Alegre, conquistou a Libertadores e o Mundo, até tornar-se capitão no título inédito da Sul-Americana. Anos depois, ao jogar pelo rival tricolor, Edinho afirmou que o elenco do Grêmio daquele ano era melhor que o do Inter em 2006, causando revolta por parte dos colorados.

Depois de dois meses de negociação com o Yokohama Marinos, o Internacional anunciou a contratação de Magrão, que tinha no currículo excelentes atuações pelo Palmeiras, culminando em sua convocação para a Seleção Brasileira. O volante chegou em 2007 e tornou-se ídolo com a torcida. Teve uma parada forçada na carreira no ano de 2009 para tratar de um problema com pedras nos rins, mas retornou em menos de um mês. Deixou o clube ainda em 2009 rumo ao Al-Wahda, dos Emirados Árabes.

Magrão comemorando gol contra o Boca Juniors.

Também em 2007 chegara o dono da camisa 5. El Cholo Guiñazu se entregava dentro de campo e rapidamente conquistou o torcedor colorado. O volante tinha um extenso currículo com passagens pelo Newell’s Old Boys, Independiente e Libertad, clube que defendia quando foi contratado pelo Inter. As boas performances de Guiñazu o levaram de volta à Seleção Argentina em 2011 e 2012, já com mais de 35 anos. Permaneceu no colorado até 2013, quando transferiu-se de volta ao Libertad.

Para manter a lista com hermanos e com ídolos, fechando o meio de campo estava o maior camisa 10 da história do clube – que à época ainda usava o número 15 nas costas -, Andrés Nicolás D’Alessandro. O meia tinha passagens por River Plate – seu clube formador -, Wolfsburg, Portsmouth, Zaragoza e, por último, San Lorenzo, onde foi um dos protagonistas no time na Libertadores de 2008. A contratação de D’Ale não foi fácil, pois Grêmio e o próprio River desejam contar com o meia nos seus elencos. Quem venceu a disputa a história já respondeu e logo em sua estreia, D’Alessandro eliminou o rival tricolor em um 1 a 1 pela Copa Sul-Americana.

D’Alessandro estreou pelo colorado em um Gre-Nal válido pela Sul-Americana.

Como D’Ale usava a 15, o dono da camisa 10 era Alex. O habilidoso canhoto estava no Inter desde 2004, quando veio do Guarani, e foi para muitos o melhor jogador da Sul-Americana, tendo marcado três dos quatro gols contra o Boca Junior no agregado de 4 a 1 nas quartas-de-final. Alex ainda foi o artilheiro da competição com 5 gols, com destaque justamente para as partidas contra o Boca, em que fez dois golaços no Beira-Rio.

Fechando os onze titulares estava Nilmar. O atacante revelado pelo colorado no começo da década havia passado por Lyon sem sucesso e formado uma das melhores duplas de ataque do Campeonato Brasileiro ao lado de Carlos Tévez no Corinthians, mas retornou ao seu clube formador em 2007 para fazer dupla com Fernandão. Foi juntamente com Alex o artilheiro da Sul-Americana, ambos com 5 gols, e sagrou-se ídolo após o gol nos acréscimos contra o Estudiantes, garantindo o título inédito. Deixou o Inter em 2009 para jogar no Villareal e conquistou uma vaga na Copa do Mundo de 2010 com Dunga, sendo reserva de Luis Fabiano.

No banco de reservas, o colorado tinha importantes peças como Gustavo Nery, que logo na sua chegada do Fluminense confundiu o nome do Inter com o do rival. Apesar de ter tido poucas boas atuações com o clube, Nery marcou seu nome na história colorada ao dar assistência para Nilmar fazer o gol do título. No meio de campo, Andrezinho foi muito utilizado por Tite. O verdadeiro 12º jogador do Inter nas conquistas da Sul-Americana e da Libertadores dois anos depois, o meia ficou no clube entre 2008 e 2012, tendo depois passado por Vasco e Botafogo, até se aposentar no Nova Iguaçu, clube no qual estava antes de se apresentar no colorado.

O banco daquele ano ainda contava com mais dois ídolos colorados. O primeiro é Sandro, que tinha apenas 19 anos, mas já mostrava categoria e força. O volante das categorias de base entrou nas duas partidas das finais e após a saída de Edinho em 2009, herdou a vaga de volante titular e a camisa 8. O talismã da conquista da Copa Sul-Americana, entretanto, era Taison, que só não era titular por conta das atuações excelentes de Alex e Nilmar. Rápido e habilidoso, Taison subiu das categorias de base e foi fundamental na goleada em cima do Chivas válida pela semifinal. O atacante de apenas 18 anos destacou-se ainda mais no ano seguinte, sendo um dos goleadores da Copa do Brasil e posteriormente campeão da Libertadores com o colorado. Ídolo também fora de campo, Taison deve retornar ao Inter ao final de seu contrato com o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. Enquanto isso, resta a nós, torcedores, vivermos da nostalgia do camisa 7 com o manto vermelho.

Um (não tão) breve resumo da campanha

Naquele ano a Sul-Americana já começaria com um toque especial. Logo na estreia – que seria também a estreia de D’Alessandro – um Gre-Nal. Empate por 1 a 1 no Beira-Rio e no Olímpico o colorado começou abrindo o placar. Nilmar e Índio fizeram para o Inter e o Grêmio ainda conseguiu a reação, porém tardia. 2 a 2 com o Inter classificado e com direito a invasão de Tite no gramado para comemorar e frango de Clemer.

Nas oitavas, novamente o colorado conseguiu a classificação no gol fora. Enfrentou a Universidad Católica e, com um time misto em razão do Gre-Nal que aconteceria no Campeonato Brasileiro, empatou por 1 a 1. Segurou o empate sem gols em casa e conseguiu a classificação. 

Nas quartas-de-final, um dos maiores triunfos na competição: vencer o Boca Juniors. A primeira partida foi em casa e Alex decidiu a parada, com dois golaços da intermediária. Ainda sobrou tempo para o atacante Noir, do Boca, entrar em campo, agredir Magrão e ser expulso. O jogo de volta marcou o retorno de D’Alessandro, ídolo do River, ao gramado do rival. O primeiro tempo seguiu zerado, mas com menos de dois minutos da segunda etapa, Magrão chutou na trave, pegou seu próprio rebote e enfiou a bola no fundo da rede. O volante saiu em disparada para o centro do campo, se jogou no chão, correu mais um pouco e saudou a torcida colorada na Bombonera, em uma comemoração que ficaria eternizada.

Poucos minutos depois, Edinho fez pênalti em Dátolo – que viria a vestir a camisa do Inter anos à frente – e Riquelme igualou a partida. D’Alessandro, que não fez um bom primeiro tempo, deu passe açucarado para Alex marcar seu terceiro gol contra los xeneizes e fechar o placar e a classificação.

Alex foi autor de três gols contra o Boca Juniors e sagrou-se artilheiro da Sul-Americana ao lado de Nilmar.

Nas semis, veio o Chivas – que voltaria ao caminho do colorado dois anos depois – e junto veio mais um show de Alex. O colorado abriu o placar com um gol de Nilmar e poucos minutos depois Alex cobrou falta com uma pancada que só sua perna canhota sabe controlar. A bola foi no ângulo e marcava o 2 a 0 para o clube gaúcho. 

Sem Alex para o jogo de volta, D’Alessandro foi quem orquestrou a goleada. O argentino sofreu e cobrou o pênalti para abrir o placar. Ainda no primeiro, o meia cobrou falta com perfeição e ampliou. Após Taison quase fazer olímpico, Nilmar aproveitou a falha do goleirão e fez 3 a 0. No segundo tempo, Taison fez excelente jogada pela direita e deixou Nilmar na cara do gol, que transformou o placar em goleada: 4 a 0 e classificação inédita de um brasileiro para a final da Sul-Americana.

A grande final seria contra o Estudiantes, que estava há 37 anos sem disputar uma decisão em competições internacionais e que estava invicto há 43 partidas no Estádio Ciudad de La Plata. Porém, era o ano do Inter ser invicto

D’Alessandro foi eleito melhor em campo na partida de ida.

Com estádio lotado, Guiñazu foi expulso logo aos 24 minutos e deixou o colorado em desvantagem. Mas o Inter não se abalou e seguiu atacando, chegando com muito perigo pelas laterais. A velocidade de Nilmar quebrava qualquer linha da defesa argentina e, aos 32’ sofreu falta dentro da grande área: pênalti apitado por Carlos Amarilla e convertido por Alex. O Inter estava um gol a frente no placar e com um jogador a menos no campo. Apesar dos esforços do Estudiantes, a partida seguiu equilibrado e o colorado saía da Argentina com o placar a seu favor.

Uma semana se passou e as equipes se encontraram novamente no Beira-Rio. Desta vez com festa dos vermelhos gaúchos, o colorado não poderia contar com o zagueiro Índio, lesionado e substituído por Danny Morais, nem com o volante Guiñazu, expulso no primeiro jogo e substituído por Andrezinho. A partida começou tensa e assim seguiu pelo primeiro tempo. O Inter detinha a posse de bola, mas não jogava bem. Todas as bolas passavam pelo pé de D’Alessandro, que já havia sido eleito “melhor em campo” na Argentina. Enquanto isso, Nilmar tinha dois marcadores cuidando de cada passo que dava, impossibilitando que o Inter usasse seu centroavante. O Estudiantes até chegou ao tento no primeiro tempo, mas o árbitro Jorge Larrionda errou e anulou o gol dos argentinos, encerrando, assim, a primeira etapa com o placar zerado.

O segundo tempo começou com a cara do Inter. Com menos de 15 segundos, Nilmar, Alex e Andrezinho fizeram uma triangulação e o último disparou raspando a trave de Andújar. O Estudiantes, nervoso, ainda tomaria dois cartões amarelos, mas, como eu disse, o segundo tempo começou com a cara do Inter. Os argentinos cresceram, empilhando chances até que, aos 20’, Benítez levantou bola na área e Alayes encheu o pé, empatando o agregado

O Estudiantes continuou pressionando e Tite decidiu fazer sua segunda substituição – antes do gols, Andrezinho saiu para dar lugar a Gustavo Nery – tirando Alex e inserindo Taison na partida. Nada mudou e o Inter não conseguia igualar o marcador. Próximo ao final da partida, Angeleri disparou um chute que calou o Beira-Rio enquanto a bola passava à esquerda da meta de Lauro.

Ainda havia tempo para um último ataque colorado. Nilmar foi lançado e seguiu em direção à meta adversária, sofrendo falta da defesa argentina e caindo dentro da grande área. Jorge Larrionda não apitou o que seria uma perigosa falta frontal para o time da casa, gerando revolta e inclusive a expulsão por reclamação de Agenor, goleiro reserva do Inter. Com esta imagem, o jogo se encaminhou para a prorrogação.

O Inter melhorou no tempo extra e solidificou sua defesa, impedindo qualquer chance de ataque dos argentinos. Verón foi substituído e, aos 12’, o colorado tentou não uma, não duas, mas três vezes seguidas na pequena área em uma sequência de chutões – a maioria protagonizados por Bolívar – defendidas espetacularmente por Andújar. No lance seguinte, foi o Estudiantes que chegou com perigo após dois erros de Gustavo Nery.

O segundo tempo da prorrogação começou com Tite botando o jovem Sandro no lugar de Magrão, claramente desgastado após os mais de 100 minutos de partidas. O colorado seguia muito superior e, se Gustavo Nery estava tendo uma atuação ruim, naquele dia o lateral entrou para a história do clube. Aos 8’, D’Alessandro cobrou escanteio, Nilmar cabeceou para o chão, forçando difícil defesa de Andujar. No rebote do goleiro, Nery chutou e Nilmar completou de bico. O gol do título. O gol da festa. O gol da vida de Nilmar.

O Estudiantes bem que tentou marcar e, acima disso, bem que reclamou. Reclamou tanto que o meia Braña foi expulso ao gritar com Larrionda. Lauro recebeu amarelo por retardar o reinício da partida com a sua já clássica e muito necessária cera. Na última jogada da partida, D’Alessandro entortou dois marcadores e lançou Nilmar em velocidade, mas Larrionda parou o lance e aplicou o cartão vermelho em Mauro Boselli por falta fora do lance em D’Ale. Fim de jogo e vitória colorada.

Nilmar comemorando o gol do título na prorrogação;

O Inter conquistava o título inédito da Sul-Americana da maneira mais dramática – e invicta – possível, com lesões, cãibras, cartões vermelhos, heróis improváveis e ídolos. Era festa vermelha e mais uma vez o colorado pintava a América de vermelho e branco. Mais do que isso, para a disputa daquele ano, um dos maiores ídolos chegou ao clube: Andrés Nicolás D’Alessandro foi comprado para a disputa da Sula mas não é preciso dizer que fez muito mais.

A conquista mantinha viva a senda de vitórias do colorado das glórias. Dois anos depois, viria mais uma para a série, mas essa história fica para depois.

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