segunda-feira, 03/08/2020
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Ídolos do Passado: Gessy

Em 1954, o Grêmio ergueu um monumento que mudaria toda a sua história. No dia 19 de setembro, o estádio Olímpico – ainda não Monumental – era inaugurado em Porto Alegre. A vitória contra o Nacional foi apenas o começo de uma série de conquistas. Nos treze campeonatos gaúchos seguintes, o Grêmio saiu com a taça em doze. Para que isso fosse possível, o tricolor certamente tinha um elenco admirável.

Em 1955 chegou ao clube o meia-atacante Gessy Lima. À época com 20 anos, demorou menos de uma temporada para conquistar a titularidade. Venceu todos os títulos estaduais e metropolitanos, sendo assim pentacampeão gaúcho e citadino entre os anos de 1955 e 1960. 

Os feitos de Gessy foram tantos que sua idolatria o elevou ao status de mito. Ainda assim, de fantasia não havia nada em suas histórias. Em certa ocasião, o tricolor iria até a La Bombonera enfrentar o imponente Boca Juniors. Um jogo imperdível, claro, mas acontece que Gessy tinha um compromisso com seus estudos. O treinador Osvaldo Rolla, o Foguinho, não aceitou dispensar o jogador, que fez as provas de vestibular para Odontologia e se encontrou com o restante do grupo em Buenos Aires no dia seguinte. Mas Gessy não era bonzinho. Gessy era um bad boy dos anos 50. Antes de pegar o vôo para Argentina, passou a noite bebendo e fumando em comemoração com seus amigos por ter realizado o vestibular.

A bebedeira e os cigarros não atrapalharam em nada o jogador, que marcou extraordinários quatro gols contra o Boca no que seria a primeira derrota dos xeneizes para algum clube estrangeiro dentro de seu templo. Em uma performance de gênio, Gessy foi aplaudido de pé pela torcida adversária a cada janelinha que lançava sob as pernas dos defensores.

Titulares do Grêmio em preparação na Bombonera.

A ocasião é um bom exemplo de seu apelido: Craque Paradoxal. Gessy era um craque, jogava muito bem o jogo de futebol. Mas tinha um detalhe. Gessy não gostava ser jogador. As obrigações de treinos e partidas atrapalhavam seus compromissos com a bebida, com o cigarro e com a Odontologia. Esse tipo de vida desregrada fez com que sua carreira declinasse em pouco tempo.

Gessy ficou cinco temporadas com o manto gremista e foi o suficiente para marcar 214 gols, tornando-se, na época, o maior artilheiro da história do clube. Teve como parceiro de ataque o igualmente goleador Juarez, que chegou à vice colocação na lista de artilheiros com 202 gols. Nas décadas seguintes, ambos seriam ultrapassados por Alcindo (264 gols) e Tarciso (222 gols).

Ao lado de Milton e Ivo Diogo, Gessy fez parte da Seleção Gaúcha.

Após muitos títulos e cervejas na Churrasquita no centro de Porto Alegre, Gessy deixou o Olímpico para atuar na Portuguesa, já fora de ritmo e com atuações irregulares. Seguiu atuando por três temporadas e, aos 28, aposentou-se dos gramados e fechou-se para esta vida. Concluiu a faculdade de Odontologia e passou a trabalhar na área. Gessy não era mais jogador de futebol e agia como se nunca tivesse sido. Gessy agora era dentista. Ah, e um ávido fumante, claro.

A obra A História dos Grenais, de 1994 e escrito por Nico Noronha e David Coimbra, relata o cotidiano de Gessy:

Um mistério no Grémio. Morreu de câncer, anos após parar de jogar. A maioria de seus ex-colegas e dos antigos dirigentes do clube garante que ele não gostava de futebol. Jogava apenas por dinheiro, para pagar a faculdade de odontologia. Retraído, não suportava brincadeiras, quase não falava e sequer comemorava os muitos gols que marcava. […] Gessy apreciava sobremaneira três coisas na vida: cigarro, bebida e mulheres. Alguns jogadores ainda lembram de um dos raros momentos em que viam os olhos do ponta-de-lança brilharem: quando estava atrás de um pilar de bolachas de chope na Churrasquita, no Centro.

O livro ainda destaca que Gessy tinha outro apelido. Seus companheiros o chamavam de Relâmpago por conta do brilho das dezenas de fósforos que o atacante riscava ao fumar seus cigarros. Gessy ainda era asmático e constantemente precisava ser carregado por colegas no gramado. 

Já sobre as mulheres, o atleta foi retratado como tendo muitas amantes por onde passava. Entre as tantas apaixonadas, destacava-se uma baixinha da Vila IAPI que constantemente podia ser vista nas arquibancadas do Olímpico, assistindo aos treinos. Chamava-se Elis Regina. A relação dos dois foi confirmada por diversos companheiros de Gessy na época e a paixão que Elis nutria pelo tricolor faz parte das histórias que a capital gaúcha guarda em seu âmago. Contam muitos de seus contemporâneos, entre eles o treinador Oswaldo Rolla, que Gessy finalmente perdeu a capacidade física devido aos ardores de uma namorada insaciável. 

A célebre torcedora tricolor Elis Regina.

Folclore ou não, Gessy é um dos personagens mais marcantes da história do futebol gaúcho. Personagem não, pessoa, mito e lenda: Gessy foi todos.

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